Será, a primeira canção do primeiro disco da legião Urbana começa com
os seguintes versos: "Tire suas mãos de mim / Eu não pertenço a voce".
Parecia uma declaração de princípios punks, outoritária e arrogante,
onde o grito de independencia pressupõe o corte de todos os laços
(afetivos, de qualquer tipo de pertencimento) com o mundo ao redor e
com as pessoas que vivem nesse mundo. Mas Será não é, nem de longe,
uma reedição irônica de Sub-Mission dos Sex Pistols. Será é o início
do diálogo (com um "voce" ambíguo, em constante metamorfose, que
reaparecerá em inúmeras outras músicas da Legião Urbana) e a primeira
tentativa de construção de um outro mundo regído por princípios éticos
pós-punks, que levem em conta (e ao extremo) a ausencia de futuro e a
descrença radical no que passou.
Será é antes de tudo uma canção romântica (não foi por acaso que também
fez sucesso na voz de Simone e no rítmo melodramático do pagode-suin-gue)
, tão romântico quanto a escrita do mais desesperado poeta romântico
alemão, que também vivia o fim de um mundo. O sentimento predomi-
nante em Será, e nas demais faixas do primeiro disco da Legião Urbana,
não é a revolta, mas sim o desamparo ("Quem é que vai nos proteger?") e a
necessidade urgente de criação de uma nova comunidade, sem depender de
ninguém, já que ninguém nos protege.
Essa proposta (assim mesmo desesperada e desamparada) utópica da Legião
já foi interpretada/acusada de messianismo. Pode ser o caso, mas
trata- se certamente de um messianismo paradoxal ou radical (mesmo em
seus momentos mais cristãos), um messianismo que não transmite a "boa
pala- vra", mas sim o eterno retorno do "no future" como a nova ética,
uma ética sempre descrente de seus princípios, da possibilidade de
melhorar o mundo, ou da existencia de alguma solução para qualquer
problema. Solução? Em Teorema a própria idéia de solução é colocada em
suspenso: "Não sabemos se isso é problema / Ou se é a solução". Tudo
é (repito: por princípio) motivo para dúvida: "Se eu soubesse lhe dizer
qual é a sua tribo / Também saberia qual é a minha" (Petróleo do
Futuro); "Vive- mos num planeta perdido como nós / Quem sabe ainda
estamos a salvo" (Perdido no Espaço); "Qual é a diferença?"
(Baader-Meinhof Blues); "Quem é o inimigo?" (Soldados); "Eu não sei
mais o que / Eu sinto por voce" (Ainda é Cedo).
O estar perdido (em qualquer espaço, e não apenas no Brasil), a deriva,
também se reflete numa errância por vários estilos musicais pós-punk.
Legião Urbana 1 é quase um álbum colcha-de-retalhos onde convivem
vários ecos da fragmentação pós-punk. A Dança lembra o funk-punk do
Gang of Four, Ainda É Cedo tem a melancolia do Joy Division e do
primeiro U2. A Legião Urbana gravou até um reggae e um "punk-básico"
(mesmo na letra) como Geração Coca-Cola (composição do tempo do Aborto
Elétrico, primeiro grupo "punk" de Brasília, primeiro grupo musical
de Renato Russo). Não era possível perceber, a partir desse disco de
estréia, quais seriam os próximos passos musicais da banda.
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